Cultura

Artigo: Memórias Secretas da Escravidão

O dia da consciência negra teve início no Rio Grande do Sul, seu idealizador foi o professor e poeta Oliveira Santana. Hoje, mediante a Lei Nº 12.519/2011, torna o dia feriado em mais de mil cidades do país. Infelizmente nessa data a origem da escravidão não é relembrada e é isso que trataremos nesse artigo.

Artigo de Luciana O Garcia

Comprovações Históricas

Durante os anos 1500 e 1850, 12 milhões de africanos foram escravizados. A PNAS (Academia Americana de Ciências) realizou alguns testes com restos mortais humanos que revelaram a origem de três escravos originários das regiões onde hoje é Camarões, Gana e Nigéria. Ossos de dois homens e uma mulher foram desenterrados em 2010 em uma obra no Caribe, na ilha de San Martín. 

O Comércio Humano

A escravidão não limita-se aos países africanos. Relatos históricos e teológicos datam povos que foram escravizados após perderem batalhas, como é o caso dos hebreus. Grécia e Roma também possuíam numerosos escravos, esses porém recebiam bom tratamento e tinham oportunidades de comprar a liberdade.

Tratados como produtos, os escravos eram escolhidos por suas condições físicas, habilidades, idade, procedência e sexo.

África e o Tráfico Escravo

A escravidão na África começou antes dos descobrimentos marítimos dos europeus. Internamente, africanos já escravizavam africanos. Os motivos variavam:

Se havia guerra de tribos, por exemplo, os capturados eram vendidos na costa como escravos. Mas a guerra era apenas um meio, razias, julgamento de crimes, heresias, endividamento e até mesmo involuntariamente por motivo de fome, um cidadão africano se tornava escravo.

Os escravizados na África, trabalhavam desde serviços braçais e brutos até como comandantes dos alto escalão do seu grupo, tribo ou Estado. As condições, muitas das vezes, eram sub-humanas. Com a chegada do comércio marítimo e expansão do “Novo Mundo”, muitos escravos eram obrigados a caminhar longas e extremas distâncias até o mar. 

Africanos eram comercializados e vendidos pelo Mar Vermelho, Deserto do Saara e Oceano Índico, os compradores vinham da Ásia e da Europa. Muçulmanos, egípcios, romanos, persas e até mesmo chineses compravam escravos africanos; na China, eram levados como mercadoria exótica. 

Exportação para América Latina

A colonização alcançou as Américas e trouxe um novo mercado: cana de açúcar. Com grande demanda de mão de obra bruta, europeus rejeitavam o trabalho – mesmo os prisioneiros, escassez de mão de obra alarmante e o trabalho pouco gratificante, o comércio de tráfico humano cresceu e atravessou o Atlântico trazendo mão de obra escrava.

Os europeus ofereciam aos africanos artigos e objetos que, para eles, eram de luxo como tecidos asiáticos, tabacos, armas de fogo, pólvora, bebidas como vinhos, cavalos e ferros – que eram derretidos para fabricação de armas para guerras.

Os africanos foram mudando a concepção a respeito da venda de escravos e dado período deram preferência por vender escravas; as mulheres africanas eram responsáveis pela agricultura e exerciam grande influencia comunitária, o que traria maior desenvoltura de trabalho no país a qual fossem enviadas. As crianças também eram tidas como ideal de venda escrava, isso permitiria maior integração com os costumes de seus senhores.

Homens, por sua vez, eram enviados mais facilmente porque representavam riscos para a comunidade, pois se tratavam de soldados capturados ou criminosos. 

Alguns lugares tiveram maior índice de tráfico humano, caso do Congo, Angola e Baía de Benin.

Escravidão no Brasil

* Uma curiosidade pouco comentada é a que negros monarcas vinham para o Brasil para estudar, como por exemplo os filhos do rei Kosoko, de Lagos – hoje capital na Nigéria. 

Em 1516 surgiu o primeiro engenho de açúcar, que se tem registros, no Brasil. O engenho ficava em Feitoria de Itamaracá, litoral de Pernambuco, e era comandada por Pero Capico. Por esse fator, os escravos que chegaram ao Brasil no século XVI  foram destinados a trabalhos na agromanufatura açucareira do Nordeste, além de serem alocados nas minas de ouro para extração de metais preciosos em Minas Gerais a partir do século XVIII.

As mulheres escravas eram destinadas aos trabalhos domésticos como cozinheiras, arrumadeiras, amas de leite.

A Colônia Portuguesa recebeu o maior número de escravos vindos da África, superando o Caribe e os Estados Unidos. O estado brasileiro que mais recebeu escravos foi o Pará, seguido de Minas Gerais.

A condição de sobrevivência era precária tanto de vestimentas quanto de alimentação, o local onde dormiam ficou conhecido como senzala, lá eram acorrentados para coibir fugas. Sofriam castigos físicos com açoites, além de torturas psicológicas.

Eram também enganados com mitos gerados pelos senhores, como por exemplo o da manga com leite que tinha o intuito de evitar o consumo de leite pelos escravos, uma vez que a manga era próspera nas fazendas e sem custo para os senhores.

Máscaras de ferros eram colocadas nos escravos de mineradoras para evitar que os mesmos engolissem diamantes.

A prática dos ritos e festas eram proibidos. Os escravos eram obrigados a seguir o catolicismo, com isso nasceu o sincretismo religioso. A capoeira surgiu nesse período como arte marcial disfarçada de dança.

A farsa: Zumbi dos Palmares

Comunidades quilombolas surgiram com moldes organizacionais das tribos africanas. Os fugitivos, viviam em plena liberdade nos assentamentos quilombolas, onde praticavam sua religiosidade, falavam sua língua nativa e cultivavam sua cultura.

Desses quilombos, o mais famoso foi Quilombo dos Palmares que era localizado na Serra da Barriga, na Capitania de Pernambuco – hoje a região pertence ao município de União dos Palmares em Alagoas. Esse quilombo era liderado por Zumbi dos Palmares.

Pesquisadores como Leandro Narloch, que é jornalista e escritor, e Ronaldo Vainfas, que é professor na UFF (Universidade Federal Fluminense), tem revelado dados históricos que comprovam que era o verdadeiro Zumbi dos Palmares.

Vindo do engenho escravocrata, ele descendia dos imbangalas que eram os senhores da guerra na África Centro-Ocidental, Zumbi vivia uma hierarquia com direito a reis e servos, bem nos moldes africanos. Ele era um general quilombo que “lutava” contra as escravidão de seus semelhantes, mas que também os escravizava. 

A democracia e igualdade não eram a prioridade de Zumbi; ele mandava capturar escravos nas fazendas vizinhas para trabalho forçado no Quilombo dos Palmares e sequestrava mulheres consideradas raras, além de executar quem tentava fugir do quilombo.

Ainda especula a falta de legitimidade para comprovar que Zumbi teria sido criado por um padre e ter aprendido latim. Ele também teria rompido um acordo com Portugal e antecipado a destruição de Palmares, de acordo com um dos historiadores.

Caminhos do Fim da Escravidão

O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão. No entanto, no Século do Ouro (XVIII) alguns escravos conseguiam comprar sua liberdade após adquirirem uma carta de alforria.

Em 1850, a Lei Eusébio de Queirós proibiu o tráfico negreiro. Na década de 1870 os militares do Exército e os brasileiros passaram a repudiar o sistema escravista. 

A Lei do Ventre Livre foi promulgada em 1871 e determinou que toda criança nascida de mãe escrava deveria ser considerada livre; esta lei estabelecia o acúmulo de pecúlio.

Em 1885 foi promulgada a Lei dos Sexagenários que determinou que todo escravo com mais de 65 anos fosse considerado livre.

A Redentora: Princesa Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon-Duas Sicílias e Bragança

sabel foi a segunda filha e a primeira menina do imperador Pedro II do Brasil, sua mãe era a imperatriz Teresa Cristina das Duas Sicílias. Com a morte dos dois irmãos homens, ela se tornou herdeira de Dom Pedro e serviu três vezes como regente do império, assim articulou a abolição dos escravos.

Princesa Isabel ganhou honras brasileiras e estrangeiras, sendo elas:

Brasileiras: Grã-Cruz da Imperial Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, Grã-Cruz da Imperial Ordem de São Bento de Avis, Grã-Cruz da Imperial Ordem de Sant’Iago da Espada, Grã-Cruz da Imperial Ordem do Cruzeiro do Sul, Grã-Cruz da Imperial Ordem de Pedro Primeiro e Grã-Cruz da Imperial Ordem da Rosa;

Estrangeiras: Áustria-Hungria Insígnia da Ordem da Cruz Estrelada, Espanha Faixa da Ordem das Damas Nobres da Rainha Maria Luísa, Reino de Portugal Faixa da Ordem Real de Santa Isabel, Segundo Império Mexicano Grã-Cruz da Imperial Ordem de São Carlos e Vaticano Recipiente da Rosa de Ouro.

Em uma carta, a princesa fez um pedido ao pai, que foi concedido. Dizia a carta:

“Papai. 
Para o dia do meu casamento peço a Papai que faça Joaninha retreta. Ela tem me servido muito bem […] Peço-lhe também a carta de liberdade a estes escravos: Marta (negrinha do quarto); Ana Sousa (mãe); Francisco Cordeiro (preto do quarto); Maria d’Áustria (mulher), Minervina (lavadeira); Florinda e Maria d’Aleluia (engomadeira); José Luís (preto que tocou todo o tempo de nossa dança e que toca ainda nos dias de divertimento); Antônio Sant’Ana (preto que serviu algum tempo).
P.S.: Não sei se Papai quer que a lavadeira e a engomadeira fiquem servindo até eu partir para a Europa, mas enfim se Papai quiser, pode lhes dar a carta no dia 15 para essa época.”

Em 26 de fevereiro do mesmo ano, a princesa promoveu um concerto em prol da libertação de Petrópolis.

Ao discursar no dia 03 de maio, na abertura da terceira sessão da 20º Legislatura da Assembleia Geral, Isabel destacou:

“A extinção do elemento servil, pelo influxo do sentimento nacional e das liberalidades particulares, em honra do Brasil, adiantou-se pacificamente de tal modo, que é hoje aspiração aclamada por todas as classes, com admiráveis exemplos de abnegação da parte dos proprietários.

Quando o próprio interesse privado vem espontaneamente colaborar para que o Brasil se desfaça da infeliz herança, que as necessidades da lavoura haviam mantido, confio que não hesitareis em apagar do direito pátrio a única exceção que nele figura em antagonismo com o espírito cristão e liberal das nossas instituições.

Mediante providências que acautelem a ordem na transformação do trabalho, apressem pela imigração o povoamento do país, facilitem as comunicações, utilizem as terras devolutas, desenvolvam o crédito agrícola e aviventem a indústria nacional, pode-se asseverar que a produção sempre crescente tomará forte impulso e nos habilitará a chegar mais rapidamente aos nossos auspiciosos destinos.”

No dia seguinte, a princesa convidou 14 negros fugidos, capturados e alforriados para almoçarem com a família imperial na Quinta da Boa Vista.

Nono dia 13 de maio de 1888, Isabel mudou a história: promoveu a abolição da escravidão, durante sua última regência, assinando da Lei Áurea (Lei Imperial n.º 3.353):

Art. 1°: É declarada extincta desde a data desta lei a escravidão no Brazil.
Art. 2°: Revogam-se as disposições em contrário.
Manda, portanto, a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram, e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nella se contém. […]
Dada no Palácio do Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1888, 67º da Independência e do Império

A ação foi amplamente popular, veículos de comunicação exaltaram o feito, a oposição cresceu quanto a sucessão ao trono. Isabel era católica praticante, casada com um estrangeiro e gerou descontentamento de muitos fazendeiros e quilombos com a emancipação dos escravos.

Um golpe de Estado político-militar destituiu, no dia 15 de novembro de 1889, a monarquia brasileira. Chamado de Proclamação da República, o ato aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, local onde hoje é a Praça da República, quando o marechal Manuel Deodoro da Fonseca liderou seu grupo para destituir o imperador para assumir o poder no país. Instaurou um governo provisório republicano, que foi a Primeira República Brasileira e encerrou a monarquia constitucional parlamentarista do Império e destituiu, consequentemente, o imperador Dom Pedro II.

Além da tomada de poder, Dom Pedro II recebeu ordens de exílio para que fosse para Europa.

Princesa Isabel viveu os trintas anos seguintes na França. Morreu no dia 14 de novembro de 1921 no Castelo d’Eu (departamento do Sena Marítimo, na região da Alta Normandia). Teve quatro filhos sendo eles: Luísa Vitória de Orléans e Bragança – que infelizmente foi natimorta, Pedro de Alcântara de Orléans e Bragança, Luís de Orléans e Bragança e Antônio Gastão de Orléans e Bragança.

Espiritualidade, herança da escravidão

Os pretos velhos, linha umbandista, seriam espíritos evoluídos que viveram como escravos nas senzalas brasileiras. Alguns ficaram bem conhecidos, como é o caso do Pai Joaquim, Pai Benedito, Vovó Catarina, Maria Conga, dentre outros.

Conta uma história que:

Pai Benedito, teria nascido em Luanda na África, onde hoje é a capital de Angola, em 1582. Capturado como escravo, chegou ao Brasil em 1649, na cidade de Salvador – Bahia, alguns filhos vieram com ele. Lá foi designado como trabalhador nas lavouras de cana-de-açúcar e na retirada de pau-brasil. No Brasil, conheceu o cristianismo e passou a amar Jesus. 

Posteriormente foi vendido para outra fazenda, foi escravo de um senhor rígido que ordenou que ele fosse tratado com respeito pela sua idade avançada; com o tempo o senhor notou os conhecimentos de Benedito e o levou para administrar a casa da fazenda. Lá se casou com Joana e teve outros filhos. 

Benedito dedicava seu tempo para abrandar o coração de centenas de escravos, falava sobre o que aprendera sobre Jesus e dizia no colo dele (Jesus) teriam conforto após a morte; desta maneira evitou rebeliões nas senzalas. Os escravos nutriam grande amor e respeito por ele, que era chamado de Baba (pai na linguagem yorubá).

O filho de Benedito fora flagrado brincando com o filho do senhor, este quis açoitar a criança e Benedito interviu, pedindo para que fosse com ele o castigo. Assim aconteceu, ele foi largado na praia e resgatado por jesuítas, com quem passou a viver e atender pessoas que pediam ajuda. O filho foi morto logo depois.
Pai Benedito de Aruanda morreu deixando 18 filhos (no Brasil e na África)

Outra história conta que:

João Cobú ou Pai João de Aruanda, como é conhecido, teria sido um médico norte-americano, que havia vivido

nas colônias do sul, ainda no período escravocrata e tinha sido senhor de muitos escravos. Teria pedido para reencarnar como negro. Teria chegado ao Brasil por volta de 1753, também vindo de Luanda, na África.

Trabalhou na lavoura de cana-de-açúcar, deixou filhos que introduziu no conhecimento do poder terapêutico das ervas. Tornou-se popular pelos seus conhecimentos fitoterápicos, quais aprimorou quando desenvolveu suas habilidades com os afro-brasileiros, expandindo sua habilidade com o manejo de ervas e magia, extraindo potencial curativo e trabalhando como no passado com a medicina.

Esses seres trabalham na religião como conselheiros, cuidadores, orientadores, dotados de grande sabedoria, transmitindo limpeza e harmonização entre seus médiuns e consulentes.

Referências:

  • Coleção História Geral da África – Vol. I a Vol. VIII
  • A Escravidão na África uma História de Suas Transformações – Paul E. Lovejoy
  • Guia politicamente incorreto da história do Brasil Vol. I – Leandro Narloch
  • Achados e Perdidos da História: Escravos – Leandro Narloch
  • Ideologia e Escravidão – Ronaldo Vainfas
  • A História da Princesa Isabel – Amor Liberdade e Exílio – Regina Echeverria
  • Alegrias e Tristezas – D. Isabel
  • Sabedoria de preto velho – Robson Pinheiro